terça-feira, 27 de novembro de 2007

Design e Teoria na Primeira Era Modernista 1900-1945

Rafael Cardoso Denis, autor do livro Uma introdução à história do design, é PhD em história da arte pela Universidade de Londres e leciona na Universidade do Rio de Janeiro (Escola Superior de Desenho Industrial) e na Pontifícia Universidade Católica (Departamento de Artes). Este livro possui sete capítulos que estão divididos em 239 páginas. O capítulo resenhado neste texto é o quinto, que foi possui como título Design e teoria na primeira era modernista.
Neste capitulo o autor fala da evolução e do crescimento da importância do design em alguns períodos históricos. Ele relaciona o design com o nacionalismo, com o vanguardismo europeu e a escola alemã Bauhaus e a prática do design no período entre as guerras.


Design e nacionalismo
As desigualdades sociais vividas na Europa durante o período de 1900 a 1914 fizeram com que movimentos socialistas, comunistas e anarquistas ganhassem ascensão. Neste mesmo período a Alemanha e os Estados Unidos despontavam como novas potências econômicas. É diante deste contexto político e econômico que o nacionalismo ganha força e os conceitos de orgulho nacional e patriotismo como forma de representação máxima da Nação ganham ênfase.
Ao longo do tempo o nacionalismo foi perdendo a sua função de efetuar mudanças das classes mais baixas para as mais altas e a sua autoridade foi se concentrando no poder do Estado e é neste contexto que o nacionalismo tem exercido um papel fundamental na história do design.
Com o estímulo à concorrência criado pela expansão do capitalismo alguns países despertaram o interesse em coordenar as ações e produções de suas indústrias com o objetivo de obterem uma vantagem competitiva com relação aos seus concorrentes. Na Grã-Bretanha existia uma entidade privada que se destinava à promoção industrial e a integração de arte e indústria e em 1837 foi criada uma escola de design com o objetivo de melhorar os produtos britânicos e torna-los capazes de concorrer igualmente com os franceses.
Com o surgimento de novas opções internacionais de compra e venda as nações que não usufruíam do monopólio comercial foram obrigadas a buscar formas de obter vantagens competitivas para a colocação de seus produtos no mercado. Então, surgiu na Alemanha, em 1907, a Deutscher Werkbund (Confederação Alemã do Trabalho). Era uma organização pioneira no que se referia à promoção do design como forma de afirmação da identidade nacional. Para os criadores desta organização a padronização da técnica e da estilística daria aos produtos alemães a superioridade no mercado internacional; o design deveria ser usado como alavanca para as exportações e para a competitividade. Além da motivação econômica, esta instituição mantinha um discurso com o caráter ideológico.
A Werkbund se diferenciava das organizações que defendiam a "germanização" da arte e da arquitetura alemã, pois também pregava a reforma social e cultural através do desenvolvimento da indústria moderna e não através do retorno aos valores ruralistas e pré-modernos.
Este modelo de organização foi copiado em alguns países como Áustria, Suíça e Grã-Bretanha. Em 1934 a primeira versão da Werkbund acabou sendo extinta em decorrência da ascensão do Partido Nacional Socialista, mas em 1947 a organização voltou a funcionar e existe até hoje.

O vanguardismo europeu e a Bauhaus
A busca de um estilo unificado e adequado ao novo século culminou nas manifestações internacionais do Art Nouveau. Mesmo dentro deste estilo havia uma tensão entre duas soluções distintas. Uma defendia o uso de formas orgânicas, extraídas da natureza com a intenção de humanizar as máquinas e a outra promovia a geometrização das formas e o uso de motivos abstratos e lineares para com isso, adaptar o mundo e as pessoas à mecanização. Nas primeiras décadas do século 20 com o surgimento do Futurismo, do Cubismo, do Construtivismo e do Neo Plasticismo as vanguardas iriam se alinhar às máquinas como ideal estético para a produção e reprodução artística. Jovens artistas que discordavam dos ensinamentos tradicionais sobre a arte, descobriam na tecnologia, na indústria e no design uma nova forma de expressão e sagraram o automóvel como novo símbolo do belo absoluto. A utilização de aço tubular cromado e madeira compensada é uma particularidade dessa geração de designers, que objetivavam fazer um produto de qualidade e atingir um número maior de consumidores. No Brasil percebe-se a influência desses designers nos móveis projetados no período entre 1920 e 1930 por artistas como Gregori Warchavchik, Flávio de Carvalho, John Graz e Lasar Segall. As vanguardas artísticas influenciaram mais a área do design gráfico. O estilo gráfico desenvolvido por designers como Alexander Rodchenko, El Lissitzky, Hebert Bayer, entre outros dava preferência ao uso de formas mais claras, simples e despojadas a exemplo das figuras geométricas euclidianas; uma gama reduzida de cores; fontes tipográficas sem serifa e com pouca variação entre caixa alta e caixa baixa e o quase não uso de sinais de pontuação.
A maior influência do vanguardismo no que diz respeito ao design se deu na área de ensino, mesmo com o fato de a maioria dos integrantes desses movimentos serem contra a institucionalização acadêmica.
A Bauhaus foi uma escola fundada na cidade de Weimar (Alemanha), no período após a Primeira Guerra Mundial pelo arquiteto Walter Gropius. Criada em 1919 através da união da escola de belas artes e da escola de artes e ofícios, a Bauhaus que pelo fato de ser uma instituição estatal se contradizia as idéias libertárias da maioria dos seus membros, em menos de quinze anos de funcionamento, se transformou em modelo de ensino do design no século 20.
A escola passou por três diferentes direções (Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Rohe) e por três cidades (Weimar, Dessau e Berlim) e sempre foi dominada por um ideário socialista, isso justifica as mudanças de localidade que se deveram em grande parte por causa dos conflitos políticos.
A Bauhaus tentou criar vínculos com as indústrias para diminuir o seu ligamento com o Estado, mas não conseguiu. Por isso criou uma empresa para que pudesse comercializar os produtos artísticos criados na escola.
A receptividade da Bauhaus trouxe artistas de diversas partes da Europa, mas da mesma forma que esta característica contribuiu para o destaque da escola, ela também colaborou com o seu fim devido ao grande confronto entre o cosmopolitismo e as idéias xenófobas existentes na época.
A Bauhaus passou por algumas fases em termos pedagógicos. Na primeira dominaram as idéias expressionistas e místicas de Gropius e Itten, na fase seguinte o tecnicismo e o racionalismo de Moholy-Nagy e Meyer prevaleceram e na fase final sob a direção de Mies van der Rohe o ensino da arquitetura passou a ser privilegiado quase que completamente.
A contribuição mais importante da Bauhaus foi a idéia de pensar o design como uma atividade unificada e global. Nos seus anos finais ela adquiriu o título de Escola Superior de Design, pois ao longo de sua existência ela se estruturou com oficinas dedicadas a um único material ou a uma única atividade.
Para a maioria dos integrantes da Bauhaus a grande contribuição da escola foi poder trabalhar o design e a arquitetura na tentativa de construir uma sociedade melhor e mais justa. Contrário a alguns dos seus idealizadores a Bauhaus acabou contribuindo para a criação de uma estética e estilo específicos no design: o "alto" Modernismo que esteve normatizado pelo Funcionalismo, ou seja, a idéia de que a função deve determinar a forma do objeto.


A prática do design entre as guerras
Durante o período de 1920 a 1940 a indústria passou por diversas transformações e elas exigiram uma intensificação no trabalho do design. O automóvel, o avião, cinema e alguns eletrodomésticos que antes ficavam limitados às camadas mais ricas também começaram a se popularizar. Mas os benefícios da industrialização só atingiram um nível mundial após a Primeira Guerra Mundial.
No Brasil este foi um período de expansão do parque industrial e que se refletiu tanto na área econômica quanto da produção cultural. A era do rádio abriu uma grande área de atuação para o design com a popularização de rádios, vitrolas e discos.
Nos EUA os primeiros quadrinhos a exemplo de “Pafúncio” (1913), “Gato Félix” (1921), ainda primavam pelo desenho e as narrativas lineares. Mas em alguns quadrinhos como “Tarzan” (1929) e “Dick Tracy” (1921) já se percebia a evolução do design com uma forte influência do cinema como: o sombreamento dramático, enquadramentos inusitados com muito uso de close e o enquadramento seqüenciado de imagens baseado em montagens cinematográficas. Os quadrinhos se tornam importantes para o design no que diz respeito ao seu sucesso como fenômeno de comunicação visual e por sua contribuição nas transformações em termos de linguagem gráfica.
A Primeira Guerra Mundial trouxe grandes benefícios à indústria dos EUA e essa expansão da capacidade de produção industrial se voltou para os bens de consumo. Esse aumento do consumismo fez com que o design se tornasse um importante fator na escolha do produto.
O avião e o automóvel são tidos como símbolo de modernidade na época. A admiração pela velocidade fez surgir um estilo de design chamado streamlining. Este estilo dava forma mais alongada e ou arredondada ao produto e esta tendência marcou tanto que influenciou até objetos em que este tipo de design não teria a menor necessidade como canetas e rádios.
A quebra da bolsa de Nova Yorque em 1929 trouxe uma grande queda no consumismo e isso fez com que as indústrias utilizassem ainda mais o design e a publicidade. Neste período surgiu um novo estilo de design chamado styling. Este modelo foi utilizado como forma de agregar valor estético ao produto e assim estimular o consumo. Desta forma, eram criados novos produtos para substituir os antigos que estavam sendo considerados fora de moda. Esta forma de criar um modismo sobre os produtos servia para estimular o consumismo. A exemplo das décadas entre 1930 a 1960 em que o automóvel passou a ser considerado como acessório de moda e parte da população passou a trocá-lo anualmente.

Referência: DENIS, Rafael Cardoso. Uma introdução a história do design. São Paulo: E. Blücher, 2000. 239p. Cap. 5, Design e teoria na primeira era modernista, 1900-1945.